Uma Carta ao Padre Armando
O Mons. Armando, conhecido entre nós como o Padre Armando, foi pároco desta comunidade ao longo de trinta anos. Dinamizou cada lugar, viveu tradições e momentos que marcaram a história de Penajóia. Quando aqui iniciou o seu ministério, vinha de Paris, onde aprofundara a sua formação pastoral. Trazia um espírito aberto, disponível e ousado, próprio do tempo de renovação que a Igreja vivia com o Concílio Vaticano II. Sonhava uma Igreja mais próxima, participativa e comprometida com todos.
A sua primeira grande iniciativa foi a escrita. Num estilo simples, direto e profundamente pastoral, procurava tornar acessível a Palavra de Deus. Todas as semanas elaborava uma folha paroquial, ajudando as pessoas a compreender e a viver a fé no seu dia a dia. Mais tarde, ao perceber que o Jornal Ecos de Penajóia tinha deixado de ser publicado, decidiu reeditá-lo. Assim nasceu uma nova etapa deste jornal, registado como publicação local e mantido até hoje.
Os primeiros tempos não foram fáceis. Era necessário reunir colaboradores, selecionar notícias, escrever textos, escolher imagens e garantir a distribuição. Jovens e adolescentes reuniam-se na residência paroquial para dobrar os exemplares, preparar os envios e distribuir o jornal pela comunidade e pelos emigrantes. Num tempo sem redes sociais, o jornal era elo entre quem partia e quem ficava levando notícias, memórias e identidade.
O seu amor à terra levou-o também a valorizar as suas raízes. Conhecedor do ritmo agrícola das gentes de Penajóia, promoveu a valorização da cereja, incentivando a criação de iniciativas que culminaram na Festa da Cereja. Muitos recordam ainda esses momentos, em que a estrada nacional 222 parava para dar lugar à festa, à partilha e à alegria comunitária.
A música ocupava igualmente um lugar importante na sua ação pastoral. Promoveu o canto e o folclore, reconhecendo neles uma forma de expressão da identidade e da fé do povo.
Conheci o Padre Armando no seminário, onde foi meu professor de História, e através da amizade com o Rui Borges, de S. Geão (padre) e o Luís Miguel Cardoso, do Ribeiro (professor). Durante vários anos, acolheu-me nesta casa nos dias da Páscoa. Recordo com gratidão a sua família que aqui se reunia nestes dias, os momentos de convívio, as conversas, as risadas, a simplicidade com que recebia todos. Eram tempos de verdadeira fraternidade. Recentemente, tive a oportunidade de o reencontrar na celebração do Dia do Doente, com as Irmãs Filhas de São Camilo. Apesar da fragilidade, mantinha a alegria e o humor. Celebrámos juntos, partilhámos palavras e o momento que ficará guardado.
Hoje sabemos que se encontra fragilizado. O tempo dirá o caminho que ainda tem a percorrer. Talvez já não o vejamos entre nós como antes, mas permanece vivo na memória e no coração desta comunidade. E quando chegar a hora de regressar à casa do Pai, levará consigo este povo que tanto amou.
Obrigado, Padre Armando, pelo testemunho, pela amizade e pelos “Ecos” que deixaste. Continuamos a rezar por ti.
José Fernando, in Ecos de Penajóia, ano 59, nº 666, 30 de abril 2026.